A ponte entre Brasil e Suécia

“Ainda tenho alguns fios soltos”, brinca Petter Krus ao olhar para trás e fazer um breve balanço de seus trabalhos no Brasil. Embora realizada de forma descontraída, a afirmação mostra toda a disposição do sorridente professor da Universidade de Linköping (LiU). Afinal, em vez de se contentar com a enormidade de projetos nos quais se envolveu direta ou indiretamente ao longo de quase oito anos de trabalho junto a instituições brasileiras, Petter encerra seu primeiro grande ciclo de atividades no Brasil com um sentimento de que ainda há coisas importantes a serem feitas.

Os números impressionam. Desde dezembro de 2010, seis projetos envolvendo alta tecnologia e outras iniciativas estão sendo desenvolvidos em parcerias entre universidades e empresas brasileiras e suecas. Entre os destaques está o MSDEMO (sigla em inglês para Métodos para Desenvolvimento de Demonstradores em Subescala), que está sendo realizado por pesquisadores da LiU, do ITA (Instituto de Tecnologia Aeronáutica) e da USP-EESC (Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo) e cujo foco é a criação de métodos para o desenvolvimento e testes de demonstradores em subescala, bem como o desenvolvimento e validação de leis de controle de voo.

No total, esses projetos contam com a participação direta de nada menos que 31 acadêmicos brasileiros e suecos, desde professores, especialistas, pós-doutorandos e estudantes de mestrado e doutorado. Os trabalhos, que incluíram ainda profissionais do segmento industrial dos dois países, já viabilizaram um levantamento significativo financiamento e resultaram em oito artigos acadêmicos produzidos. E há mais: quatro instituições suecas e cinco brasileiras já assinaram acordos institucionais, reforçando a aproximação entre os dois países. Tudo isso desde a chegada de Petter ao Brasil.

História de sucesso

Graduado em Engenharia Mecânica pela própria Universidade de Linköping em 1982, Petter Krus logo embarcou na carreira acadêmica. Completou seu doutorado em Sistema Hidráulicos e Pneumáticos seis anos depois e em 1992 já era docente titular na LiU, função que não abandonou mais. De fala tranquila e olhar sereno, logo se destacou por seu papel junto a jovens pesquisadores. O perfil agregador, assim como a sua expertise de trabalho com empresas do porte da Saab AB, chamou a atenção de Alessandra Holmo, Managing Director do CISB, que passou a contar com o apoio do professor para os primeiros projetos da entidade que ainda estava em formação.

“Antes de vir ao Brasil, eu não conhecia nada a respeito do país, a não ser as coisas mais óbvias, como o futebol”, conta Petter. Logo lhe chamou a atenção a facilidade em se conectar com as pessoas. Quando, a convite do CISB, conheceu o ambiente acadêmico, mais especificamente o das universidades ITA, EESC-USP, UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e UFABC (Universidade Federal do ABC-SP), se entusiasmou ainda mais. “Os estudantes são ávidos por aprender”, opina.­­­

Nessas primeiras missões ao país, Petter começou a estabelecer as suas redes de contatos que logo se consolidariam em programas destacados dentro de três grandes áreas: pesquisa bilateral, estruturação de colaboração a longo prazo e educação conjunta (cursos, supervisão de alunos, mentoria de jovens professores e promoção de intercâmbio de estudantes). Mas o grande salto ocorreu em 2015, quando o professor sueco foi laureado com uma cátedra de três anos no ITA. A partir de então, foi intensificado o trabalho de aproximação de professores e alunos brasileiros e suecos, em um plano de trabalho que vem rendendo diversos frutos.

Resultados

Além do MSDEMO, outro projeto que enche Petter de orgulho é o Centro de Convergência Tecnológicas de Santa Catarina, o SC2C.Aero, que teve as atividades iniciadas em maio deste ano e é fruto do trabalho conjunto com o professor Victor de Negri, da UFSC, com quem construiu uma grande amizade. O centro, organizado a partir de grupos de pesquisa da UFSC e da Fundação CERTI, é definido como uma rede com objetivo de estimular a cooperação com e entre empresas inovadoras, que demandam soluções tecnológicas, e seus ofertantes qualificados.

“Gostei muito de trabalhar com os professores brasileiros, pois são muito receptivos”, conta Petter. “No Brasil, posso desenvolver ideias que normalmente não teria tempo de trabalhar na Suécia, por conta dos alunos que tenho que orientar”, explica. O acadêmico ainda relembra com carinho o programa de mestrado em Engenharia e Gestão da Inovação, o qual ajudou a estabelecer na UFABC. “O primeiro aluno se formou no final de 2017 e tive a oportunidade de acompanhar de perto todo o andamento do curso”, diz.

Mais do que os resultados acadêmicos, Petter diz se orgulhar das conexões realizadas no país. “A partir da confiança é que podemos trabalhar bem juntos, e isso eu consegui com os meus contatos aqui”, diz. Ele ressalta a importância do seu trabalho no que diz respeito a aproximar o Brasil dos grandes centros tecnológicos mundiais. “O Brasil está tão longe de tudo, e essas ações ajudam a fazer com que os pesquisadores se aproximem do cenário internacional”, afirma, ciente de que sua participação ao longo de quase uma década está sendo decisiva para levar o país a um novo patamar no que diz respeito à pesquisa científica e inovação.